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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Resenha: Festa no covil - Juan Pablo Villalobos

Editora: Companhia das letras
Ano: 2012
ISBN: 9788535920260
Páginas: 96
Nota: 4/5

O que moralmente correto significa?

Na pele de um garoto de 10 anos, somos apresentados a uma narrativa que gira em torno de um hipopótamo anão da Libéria, animal desejado pelo menino. O pai da tudo para ele e acaba indo em busca desse animal. A história começa com o desejo e termina quando essa busca cessa. Porém, por mais que o garoto seja bastante esperto para sua idade, também é muito inocente.

"Uma das coisas que aprendi com o Yolcaut é que às vezes as pessoas não viram cadáveres com uma bala. Às vezes precisam de três balas ou até de catorze. Tudo depende de onde você atira."

A história toda, na verdade, tem como plano de fundo o narcotráfico no México, que nunca é citado - pois o menino não entende isso. É uma narrativa curta que pode ser lida em menos de uma hora, mas entendê-la e pensar sobre ela vai levar muito mais tempo.

"Eu conheço muitos mudos, três. Às vezes, quando falo com eles, eles tentam falar e abrem a boca. Mas continuam calados. Os mudos são misteriosos e enigmáticos. O que acontece é que com o silêncio a pessoa não pode dar explicações. O Mazatzin acha o contrário: diz que com o silêncio a gente aprende muita coisa. Mas essas são ideias do império do Japão, de que ele tanto gosta. Eu acho que a coisa mais enigmática e misteriosa do mundo deve ser um mudo japonês."

Um recorte na vida de um garoto que nos faz refletir sobre a moral, que pode ser - e foi - alterada dependendo do ambiente em que se vive. Não há maneiras de que o garoto venha a ter outro destino senão o mesmo que seu pai, ainda mais por viver isolado e só conhecer por volta de 15 pessoas.

"Hoje o Miztli e o Chichilkuali fizeram coisas misteriosas, como encher uma caminhonete com umas caixas que eles tiraram de um dos quartos vazios que não utilizamos. Quando eles foram embora coloquei um chapéu de detetive e descobri um dos enigmas do Yolcaut."

É algo bem curto, mas muito inteligente, que merece ser lido e relido. Fiz essa leitura para o clube do livro e, no princípio, tinha ficado confusa. Mas conforme discutíamos, as ideias clareavam na minha mente. Acho que essa discussão é necessária quando chegar a última página.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Resenha: A Casa Assombrada - John Boyne

Editora: Companhia das letras
Ano: 2015
ISBN: 9788535925265
Páginas: 296
Nota: 3/5

Cheiro de canela. Ela precisa ir embora. 

A Casa Assombrada não é um livro de terror. Há bastante suspense e clichês de filmes que assistimos, mas posso dizer que não vai te assustar, mexer com você ou te deixar sem dormir a noite, então vá despreocupado ou sem essa expectativa. O livro é ótimo, mas por outros motivos. O terror existe, mas é algo muito mais ligado com as palavras e o psicológico que com os sustos em si. 
A história se passa em 1867, em Londres. Eliza Caine é muito apegada a seu pai, que está doente desde o início do livro. Não demora muito para que ele venha a falecer, deixando Eliza de luto e tendo que começar a vida do zero.
Ela precisa pagar o aluguel. Precisa encontrar outro lugar. Eis que encontra um anúncio no jornal. Precisa-se de governanta. Norfolk, leste da Inglaterra. Glaudin Hall. Duas crianças. Nada se fala sobre os pais. Eliza aceita sem titubear. Procura por H. Benett, aquele quem fez o anúncio, mas a partir daí acaba descobrindo que as vezes seria melhor não perguntar nada. Mas ela merece saber, não merece?! Afinal, Ela está ali.

"No início da noite, quando o sol tinha descido outra vez para ser substituído por nossa perpétua e angustiante neblina londrina, senti a mão de papai ficar cada vez mais fraca sob a minha até ele me soltar e se esvair por completo, recolhendo-se em silêncio, deixando-me órfã como os personagens sobre os quais eu falara na noite anterior, se é que alguém pode ser considerado órfão aos vintes e um anos."

Logo que Caine chega na mansão, é atendida por Isabella e Eustace, vestidos de maneira muito elegante e creepy. Tudo começa aí. 
Isabella Westerley é minha personagem preferida e talvez a mais assustadora. A garota tem doze anos mas sua postura é de uma adulta. Ela me lembrou aquelas criancinhas psicopatas dos filmes, credo. Mas eu adorei a maneira como ela foi construída pelo John Boyne. Conseguia sentir uma espécie de aflição quando ela estava presente porque, talvez por tudo o que passou, tornou-se assim, vazia. Fico arrepiada só de lembrar.


Eliza Caine é a narradora. Largou seu emprego de professora para tornar-se governante e, creio eu, que tenha se arrependido bastante. Gosto dessa personagem, de seus princípios. Como a história se passa nos anos 60, o pensamento é outro, um mundo ainda mais machista e conservador. Eliza bate de frente com vários desses posicionamentos.

"Mas não era um homem nem uma mulher à porta, e sim uma menina. (...) Estava vestida com uma camisola branca, abotoada até o pescoço, que descia até os calcanhares; parada ali, com as velas do corredor a iluminando pelas costas."

Eustace Westerley é o irmão mais novo e o mais assustado. Ele estava ali, presente, mas com medo dela e de Isabella. Ao mesmo tempo, queria simplesmente viver e só. Mas estava preso a casa e a seu passado. 
Gostei bastante do decorrer da narrativa e fiquei surpresa com a escrita de John Boyne, já que não havia lido nada dele e imaginei algo completamente diferente. Li tudo em algumas horas. Posso dizer que é uma história que te prende bastante. O autor te leva para ver os cômodos da casa, mas você só vai conhecê-los, de fato, ao fim do livro. Até lá, é quase impossível parar de ler. Posso dizer que o final me deixou arrepiada.

"Ann Williams sempre dizia coisas boas sobre Great Yarmouth", ela respondeu, tirando os sapatos e afundando os dedos dos pés na areia. (...) "Ela teve uma infância muito feliz. Foi o que nos disse, pelo menos. Infâncias felizes parecem ser coisas que você só vê em livros, não acha? Não parecem ser de verdade."

Em suma, A Cassa assombrada possui uma história no ponto certo, além de uma ótima premissa - ainda que um pouco clichê. Vale a pena ler e se encantar com esse mundo, com essa áurea londrina antiga e conhecer um pouco mais dos pensamentos da época. Além de, é claro, tirar suas conclusões sobre Glaudin Hall.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Resenha: Por isso a gente acabou - Daniel Handler

Por isso a gente acabou - Daniel Handler (Ilustrações Maira Kalman)
Editora: Companhia das letas
Páginas: 368
Ano: 2012
"Por isso a gente acabou trata, com a comicidade típica do autor, de uma situação difícil pela qual todos um dia irão passar: o fim de uma relação amorosa e toda a angústia, tristeza e incerteza que essa vivência pode gerar. Min Green e Ed Slarteron estudam na mesma escola e, depois de apenas algumas semanas de convívio intenso e apaixonado, acabam o namoro. Depois de sofrer muito, Min resolve, como marco da ruptura definitiva, entregar ao garoto uma caixa repleta de objetos significativos para o casal junto com uma carta falando sobre cada um desses objetos e do episódio que ele representou, sempre acrescentando, ao final, uma nova razão para o rompimento. Essa carta é o texto de Por isso a gente acabou, que é, assim, carregado de um tom informal e tragicômico - características da personagem - e traduz com um misto de simplicidade e profundidade a história de uma separação. Imerso neste universo adolescente, o leitor conhecerá a divertida personalidade de Min, uma garota apaixonada por filmes cujo sonho é ser diretora de cinema, e as idas e vindas deste romance, desde o dia em que os dois conversaram pela primeira vez até o instante em que tudo acabou. A artista Maira Kalman, autora de diversas capas da revista The New Yorker, ilustrou cada um dos objetos da narrativa, trazendo cor e descontração a esta história dolorida."

A expectativa era alta quando fiquei sabendo de Por isso a gente acabou, estava com bastante expectativas quando livro chegou aqui em casa, mas conforme fui lendo a animação foi diminuindo. Não diria que foi uma decepção, porque o livro realmente é bom, mas acho que poderia ter sido melhor trabalhado.
O livro inteiro na verdade é uma carta de Min Green para Ed, seu atual ex-namorado, nesta carta a garota conta a história de ambos, desde o início até o término da relação. Contando, basicamente, o porque dos dois não terem dado certo, que ela entregará para Ed junto com uma caixa com todas as lembranças.

"Estou contando porque a gente acabou, Ed. Estou escrevendo, nesta carta, toda a verdade sobre o que aconteceu. E a verdade é que, porra, eu te amei demais."

Min e Ed são muito diferentes, todos acham que aquela união é muito estranha, e, como percebemos ao longo do livro, nem todos os opostos se atraem. 
Minerva, por amar filmes antigos, constantemente compara as coisas com eles, o que é muito chato e cansativo. Ok, a ideia é bem legal, concordo, mas ela não passa uma página sem fazer alguma relação com esses filmes, isso me irritou bastante.
Ed é o típico atleta da escola, é cocapitão do time de basquete e gosta de coisas muito diferentes de Min. Sinceramente? Não gostei muito de Ed, achei ele meio "ta, e dái?!", acho que ficou faltando um pouco de substância.
O casal também diz "eu te amo" muito rápido e isso me irritou bastante, porque era perceptível que não era verdade, diziam isso para se desculpar na maior parte das vezes, como brigamos, mas vou dizer "eu te amo" pra mudar de assunto e ficar "tudo bem".
A relação dos dois não dura muito e é bem intensa, o típico "vocês estão indo rápido demais".

"Você saber, Ed, que soco no estômago é a minha própria mãe agora estar com a razão? Eu devo ter gritado alguma coisa e ela deve ter gritado também e voltou batendo o pé, acho que foi, pra dentro de casa. Mas só lembro da música diminuindo, o volume baixo de vingança, para não ser mais a trilha sonora do dia."

Gostei bastante do Al, melhor-amigo de Min, que nutria uma paixão por ela (isso não é spoiler porque é completamente deduzível), ele estava lá para ela a todo momento, inclusive é ele quem leva Min no caminhão para devolver a caixa com os objetos que significaram algo no relacionamento dos dois para Ed.
O ponto forte do livro com certeza são as ilustrações desses objetos seguidos do texto explicando o motivo de eles estarem ali, gostei bastante disso.
 Como disse, a ideia do autor é bem interessante, mas o livro muitas vezes se tornou maçante. Gostei sim do livro, principalmente de alguns trechos e determinadas cenas, minha parte preferida é o final, o que ela diz na carta depois de contar sobre o término. Gosto também de certas relações que ela faz, como que eles são a escolha errada do elenco para o filme. 
Por mais que isso tenha me irritado, gostaria de assistir vários dos filmes que foram citados, porém eles são fictícios.

"Você sabe que eu quero ser diretora, mas você nunca viu de verdade os filmes da minha cabeça e foi por isso, Ed, que a gente acabou."

Por isso a gente acabou é um livro bom, mas que poderia ser melhor desenvolvido, com menos repetições. O livro é bom, porém é meio lento e arrastado. O que é triste, pois tinha bastante expectativa em relação a ele. Em uma escala de uma a cinco estrelas, eu daria três. 
PS: Daniel Handler é Lemony Snicket, que escreveu Desventuras em série.

sábado, 17 de maio de 2014

Resenha: Dias perfeitos - Raphael Montes

Autor: Raphael Montes
Editora: Companhia das letras
Páginas: 280
"Téo é um solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Durante uma festa, ele conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Ela está escrevendo um road movie sobre três amigas que viajam em busca de novas experiências. Obcecado por Clarice, Téo quer dissecar a rebeldia daquela menina. Começa, então, uma aproximação doentia que o leva a tomar uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez. O efeito é perturbador. Téo fala com calma, planeja os atos com frieza e justifica suas atitudes com uma lógica impecável. A capacidade do autor de explorar uma psique doentia é impressionante – e o mergulho psicológico não impede que o livro siga um ritmo eletrizante, repleto de surpresas, digno dos melhores thrillers da atualidade. Dias perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão. Capaz de manter os personagens em tensão permanente e pródigo em diálogos afiados, Raphael Montes reafirma sua vocação para o suspense e se consolida como um grande talento da nova literatura nacional."

Téo é o perfeito psicopata, construído minuciosa e inteligentemente por Raphael Montes. Tudo começa quando o estudante de medicina conhece a jovem Clarice, apaixonada por cinema - que está escrevendo um roteiro denominado Dias perfeitos - mas ela não parece estar tão interessada assim.
Com sua paixão recente, Téo não pensa em desistir e faz de tudo para tê-la - literalmente. O homem acaba a sequestrando e levando para o hotel preferido da garota, uma das cenas aonde o roteiro de cinema se passa.
O livro é bem pesado e bem trabalhado, cada ação de Téo faz completo sentido na cabeça dele, de forma que, para ele, o que faz é certo. O leitor tem as duas visões - de modo que o livro é narrado em terceira pessoa - a visão de fora e a visão de Téo, para nós é absurdo ler essa história, assustador entrar de cabeça em tudo o que ele faz com Clarice e ainda mais assustador perceber o quanto isso realmente faz sentido na cabeça de Téo, como o psicopata frio pensa e é extremamente racional.
Ao longo da história, Clarice vai mudando sua personalidade, do meu ponto de vista, ela acaba quase enlouquecendo, até chegar a certo ponto - que não posso contar, senão seria spoiler.
O final me desagradou muito, queria realmente saber qual foi o proposito do autor com esse desfecho. Porém o conjunto da obra fez com que eu tirasse a seguinte conclusão:
"Dias perfeitos" é o perfeito thriller psicológico - e escrito por um autor nacional - recomendo para todos aqueles, que assim como eu, acreditam ser muito interessante entender a mente daqueles que, de certa forma, perderam a sua sanidade.
Obs: Este é um daqueles livros em que o enredo não é tão importante, ou seja, não é preciso que se foque no enredo em si, mas sim em sua construção, na construção dos personagens - principalmente de Téo - e suas ações.