segunda-feira, 11 de maio de 2015

Blogagem coletiva: Silêncio


Os olhos foram vendados. Sentia o vento bater forte em suas costas enquanto era guiada. Entre aspas. Ninguém realmente se importaria se de repente, por um acaso, a garota caísse de um precipício. Mas esse não era seu destino. Ela deveria seguir em direção a ele.
Aprendera com sua mãe que não adiantaria rebelar-se. Sabia, de certa forma, o que a esperava. Todos aqueles anos escondida na floresta. Órfã. Tentando viver uma vida miserável enquanto se escondia de qualquer resquício humano. Continuou caminhando. Apenas ouvia-se o barulho de pedrinhas se arrastando na estrada e a respiração de quem a guiava. Pareciam ser dois homens. 
O vento batendo em suas costas. As costas. O vento. As pedras. Estrada de terra. E eles atrás dela, guiando. E então, gritos. Gritos que a rotulavam. Gritos de felicidade. Risadas maliciosas. O destino seria cumprido e a população estava feliz com isso. Morre. Você não merece esse mundo. A terra não foi feita pra você. Vai pro inferno.
Mas ela não sabia como parar aquilo que veio junto com seu nascimento. Um presente. Uma maldição. Se soubesse, o teria feito. O teria feito depois de ver as consequências. Quando sua mãe foi morta em sua frente. Agora, ela enfrentaria a mesma situação.
Não conseguiu manter a calma. Seus gritos se misturaram com os da multidão. Mas todos só prestavam atenção nela. Sentiu algo áspero em suas costas após ser arremessada para algum lugar. Agora não era uma questão de probabilidade, de planos. Estava tornando-se realidade.
Os braços foram amarrados, assim como o resto do corpo. A menina gritava por liberdade. Pela mãe morta. Pelo esconderijo na floresta que havia perdido pra sempre. Sua única casa. Gritava pelo diferente.
Gritava pelo diferente enquanto o cheiro de álcool entrava por suas narinas. Seus pulsos quase sangrando de tanto serem apertados ao tentar sair dali. Vermelho. Sangue.
Começou a se alastrar pelas pernas. A fumaça denunciava o cheiro da carne queimando. Então, sua venda foi tirada e ela viu. Por poucos segundos, assistiu ao povo observando com um sorriso no rosto. Pelo medo do desconhecido. Havia uma menina ali, entre as árvores, que derramava lágrimas silenciosamente.
No último instante, quando o fogo chegava a seu peito, deu um último grito. Com todas as suas forças restantes. Talvez tenha sido fraco. Talvez ninguém tenha ouvido. Mas ela sim, seu último apelo de liberdade. A liberdade que nunca veio. Alguém escutou. Viu sua mãe aparecer em sua frente, fazendo um sinal de silêncio. Então, a garota não estava mais ali. Silêncio.
A população se dispersou.
Silêncio.
A menina da árvore limpou as lágrimas.
Silêncio.
O corpo foi tirado dali.
Silêncio.
Bruxas não merecem viver.
Silêncio.
Para sempre.

(Esse texto faz parte do tema silêncio, organizado pela blogagem coletiva do blogs up)

Um comentário

  1. QUE TEXTO MARAVILHOSO! Daria um ótimo livro a história dessa garota. Abraços!
    www.grandegalaxia.com

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