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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Resenha: Diário do farol - João Ubaldo Ribeiro


Diário do farol - João Ubaldo Ribeiro
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 304
Ano: 2002
ISBN: 8520912427
"Diário do farol é o relato autoral de um clérigo amoral e inescrupuloso, que no outono da sua existência resolve inventariar seu rosário de maldades, perpetradas com requintes extremos desde a infância no seminário - de início, sob o pretexto de vingar os maus-tratos do pai; posteriormente, ainda mais sofisticadas, devido ao desprezo de uma mulher.Auto-exilado numa ilha onde pontifica um farol, o bilioso e mesquinho padre dialoga com o leitor para provocá-lo com uma realidade na qual não há bem ou mal, e assim tentar demovê-lo de qualquer noção redentora. Conseguirá? Para ele, não há transcendência, o Universo nos é indiferente e a todos foi negada essa Revelação. Não por acaso, o farol de sua ilha chama-se Lúcifer, ´aquele que detém a Luz´.
O leitor é advertido desde a epígrafe: ´Não se deve confiar em ninguém´. A vida real é feita de rupturas, exceto para aquela maioria dos homens que perde a oportunidade de viver de fato por nunca romper com nada realmente importante, adverte-se. Num testemunho insidioso, que concilia situações hilariantes com outras de horror repulsivo e escatológico, somente o cinismo impera. Nisso, põe-se o padre a fazer troça dos ´católicos que acreditam nas besteiras do catolicismo´ e a manipular todos, fiéis ou descrentes, para atingir seus fins amorais, chegando à sofisticação de submeter-se voluntariamente a sessões de tortura para dar vazão a seus caprichos vingativos.
Um mal que - posto em tom neutro como só é possível por meio de uma arte superior como a literatura - nos permeia a todos e nos leva a refletir sobre nossa condição social e humana. Um mal na sua essência, que nada tem de panfletário e denunciador, que encontra solo fértil na sociedade e no sistema político atuais."


Diário do farol pode ser considerado o thriller psicológico mais pesado que li. Com um personagem principal sendo um psicopata extremamente meticuloso e inteligível, pensando em todos seus atos e não agindo por sentimentos. Seus atos e palavras - o livro é narrado em primeira pessoa - são colocados de maneira densa e nos fazem sentir repulsa. Acredito que por esse motivo muitos reclamem da leitura, parem o livro no meio e fiquem indignados. Esse é um livro que tive que ler para a escola e sim, fiquei com extremo nojo e indignação do protagonista, porém, ao mesmo tempo achei o livro extremamente genial, de modo a entender o que se passa na cabeça do faroleiro.
Em sua infância, o faroleiro presencia a morte de sua mãe, causada pelo próprio pai, que inclusive o maltrata dizendo que sempre quis ter um filho homem e ele com certeza não é esse filho. É possível perceber que esse trauma teve grande repercussão na vida do protagonista, de modo que, por ser ser oprimido, tornou-se opressor. 

"A realidade é, sim, muitíssimo mais inacreditável do que qualquer ficção, pois esta requer uma certa arrumação falaciosa, a que a maioria dá o nome de verosimilhança. Mas ocorre precisamente o oposto. Lê-se ficção para fortalecer a noção estúpida de que há sentido, lógica, causa e efeito lineares e outros adereços que integrariam a vida. Lê-se ficção, ou mesmo livros de historiadores ou jornalistas, [b]por insegurança, porque o absurdo da vida é insuportável (...)"

O fato ainda mais interessante é que o faroleiro não comete seus atos por si só, ele escuta a voz de sua mãe morta e esse é o motivo de tudo. Ela pede vingança e é isso que ele busca o livro inteiro, cometendo vinganças de extrema crueldade e sendo aplaudido pela mãe. O protagonista sente falta da mãe, sente-se oprimido pelo pai e ficou extremamente chocado com a cena que presenciou - embora não tenha demonstrado - então precisa de um motivo.
Outro fato interessante é o modo como o protagonista trata o bem e o mal, dizendo que eles são as mesmas coisas, estão fundidos, de modo que, para ele, seus atos não são nenhuma atrocidade, está apenas buscando a justiça, enquanto veste seu fardo religioso e frequenta o seminário.

"Desejo estragar, ou macular definitivamente, sua falsa felicidade, se você se ilude em tê-la. Minha esperança é que ela possa mirrar ou extinguir-se inteiramente, para que você veja o mundo como ele é, ou enlouqueça, ou morra, ou ambas as coisas, pois quase todos, insisto, sobrevivem apenas porque crêem que não são sozinhos. São, sim. Você é sozinho e permanentemente ameaçado, e somente um voluntarismo animalesco lhe faz ver o mundo de maneira diversa. "

A sexualidade no livro retrata partes que me causaram bastante repulsa e a pergunta de que "como uma pessoa desse modo pode existir?" e então o mesmo responde "alguém como eu pode estar do seu lado agora" o que, meu caro, infelizmente é verdade. 
Para contradizer tudo o que disse acima, deixo aqui uma pergunta: "será que tudo o que o faroleiro narrou é verdade? não estaria ele fazendo delírios e fantasias de como ele gostaria que tivesse acontecido?
Diário do farol é um livro extremamente inteligente, recomendado para aqueles com estômago forte e que querem entender ainda mais como os atos podem influenciar a vida de alguém, como traumas agem e a mente humana, além disso, a mente desse faroleiro que busca vingança, o psicopata.