segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Êxtase


Acordou em puro êxtase. Não sabia em que lugar estava até ter a visão completamente focada. Viu, então, as folhagens que a cercavam, junto com as árvores que pareciam ser grades de uma grande prisão. Com a cabeça quase explodindo, caiu de joelhos no terreno úmido. A garota não conseguia entender nada, eram muitas vozes de uma só vez. Olhava para os lados em busca de alguém, mas nem vultos foram vistos. De quem seriam aquelas vozes? Um turbilhão de palavras das quais não conseguia absorver nenhuma frase concreta, apenas palavras que sozinhas não faziam nenhum nexo. Um grito agudo seguido de risadas incontroláveis. A consciência se calou. É disso que chamam os humanos, certo? Uma força descomunal levou a garota floresta adentro. Não sabia o que estava fazendo, nem pra onde estava sendo levada. Escondeu-se atrás de uma árvore quase automaticamente ao ver, finalmente, um único vulto que passava rapidamente por ali. Seguiu o sentido contrario de seus passos e gritou por socorro. Todo o fôlego que restava foi usado. Ninguém a viu. As lágrimas caiam dos olhos da garota enquanto as pernas voltavam a guia-la. Só queria saber o que estava acontecendo e se livrar daquilo de uma vez. Tentou correr contra a correnteza, mas foi arremessada contra uma árvore. Soltou o peso do corpo e caiu no chão, a soluçar. Tentou gritar mais uma vez, mas nada saiu de sua garganta, como naqueles pesadelos em que nada é possível fazer quando algo horrível acontece. Só podia ser um pesadelo. Sabia que fracassaria, mas ainda assim beliscou o braço, nada aconteceu. Continuava no mesmo lugar. Promessa. Promessa. Promessa. Promessas devem ser cumpridas, não?! Desesperada, saiu em corrida novamente, mas acabou tropeçando e ficou estatelada no mesmo lugar. Exatamente no mesmo lugar em que acordou. O vestido, antes branco, agora estava sujo de terra e com alguns rasgos. As mãos sujas, os joelhos ralados, mas não havia sangue. De repente, sentiu-se fraca. Fraca demais para resistir. Levantou-se, secou as lágrimas e caminhou como se fosse uma corrida para algo a que almejava. Determinada, seguia pelo caminho de pedras. Um desenho em uma árvore chamou sua atenção, algo como um círculo com pontas. Um sorriso saiu automaticamente de seu rosto. Sentiu-se em casa. Sentiu-se destinada. Logo estava no ponto inicial novamente. Dessa vez não chorou, pediu apenas para que as vozes voltassem, elas a acalmavam, embora nenhuma palavra fizesse sentido. A sua única necessidade era buscar aquela grande árvore, encontrar aquele desenho. Então correu com toda a rapidez que podia e parou de sentir o chão. Mas não conseguia ir além. Seguiu o seu destino novamente. Caminhou em direção ao lugar que suas pernas ordenavam. Acordou em puro êxtase.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Resenha: Eu, você e a garota que vai morrer

 Editora: Rocco
Ano: 2015
ISBN: 9788568432181
Páginas: 2015
Nota: 4/5
Algumas grandes amizades surgem em momentos inesperados. 

Eu, você e a garota que vai morrer é um livro que me deixou bastante feliz quando terminei a leitura. Arrisquei dizer que estava na lista de favoritos, mas agora, um tempo depois, estou vendo com mais racionalidade e menos emoção (essa frase ficou bem.. haha) e posso dizer o que realmente achei do livro.

"Resumindo: eu avancei até o quarto de Rachel como um zumbi, fiz ela surtar, depois ia dar um soquinho nela. É impossível ser menos sutil que Greg S. Gaines."

Greg Gaines é quem nos conta toda a história e "escreve" o livro. De uma maneira super descontraída, somos apresentados a história. Greg tinha como principal objetivo do ensino médio não se encaixar totalmente em nenhum grupo, mas fazer parte de todos. Além disso, ele nos conta de suas experiências amorosas desastrosas e tem apenas um único amigo permanente, digamos assim, Earl - com quem faz vários filmes amadores. Acontece que uma de suas ex-namoradas, Rachel, está com câncer. Então Greg é praticamente forçado a tornar-se amigo dela, ligar para ela, visitá-la e tudo mais. E não, eles não se apaixonam no final, não tem romance, não tem mel. Então se você está procurando esse tipo de livro, Eu, você e a garota que vai morrer não é pra você.

"Se isso fosse uma história sentimental e romântica, neste momento um "SENTIMENTO NOVO E ESTRANHO" tomaria conta de Greg - uma sensação diferente por ser compreendido, de um jeito simples, como ele praticamente nunca é compreendido. Então, Greg e Rachel transariam como cães no cio."

O principal fator positivo desse livro é o diálogo que se instala entre o "autor", Greg, e o leitor. Sentia como se o protagonista estivesse na minha frente, olhando em meus olhos e contando tudo. A maneira como ele vai e volta no tempo, faz marcações, deixam a leitura bem dinâmica e leve. Só fiquei incomodada porque toda hora ele se auto-deprecia, diz que o livro é ruim, duvida que nós leremos até o final. Já entendi que você tem baixa auto-estima, Greg.


O livro é cheio de piadas e um protagonista super atrapalhado que não sabe direito o que dizer em situações como a que se encontra - me identifiquei bastante nessa parte. Algumas coisas são bem idiotas, piadas sem graça, mas outras me fizeram rir muuuito e posso dizer que fazia tempo que um livro não me fazia rir assim.

"Posso dizer uma coisa? Era exaustivo continuar falando sem parar. E talvez eu devesse ter simplesmente relaxado. Mas era como se eu tivesse que fazê-la rir, caso contrário minha visita seria um fracasso. Então, feito um bravo aventureiro dos mares, embarquei em outro tema."

Rachel me irritou bastante no início, porque ela ria alto de absolutamente qualquer coisa. Eu, que rio de quase tudo, tenho altas crises de riso sem motivo, não engoli essa personalidade dela. Mas depois melhora. Earl não tem muito destaque, mas gostei bastante de sua personalidade e queria que Jesse Andrews tivesse explorado mais o aspecto da família dele.

"Eu ficava sentado ali e tinha aquela sensação estranha de algo batendo que você tem quando a frequência cardíaca aumentou demais. Mas eu sabia que me sentiria pior ainda se não a visitasse."

O final do livro é um pouco mais rômantico. É muito bonito ver a maneira como os personagens falam sobre a morte de Rachel. (Sim, ela morre. Não, não é spoiler, apenas leiam o título) Como tentam homenageá-la de alguma forma e acabam descobrindo que não é necessário muita coisa pra deixar alguém feliz. O que eu mais gostei é que por mais que Greg tenha sido forçado a conversar com Rachel, no fim das contas ele não conseguia sair do lugar se não arrancasse um sorriso dela.

"(...) Simplesmente como se ela nunca tivesse estado por aqui, dizendo coisas e rindo para as pessoas, com palavras favoritas que gostasse de usar e jeitos de torcer os dedos quando ficava nervosa e lembranças específicas que lampejavam em sua mente quando ela comia certo prato ou sentia determinado cheiro."

Eu, você e a garota que vai morrer não vai te arrancar suspiros, mas boas risadas. É um livro que fala principalmente sobre amizade. Recomendo a leitura para todos. Afinal, um pouco de amizade nunca matou ninguém.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Feliz dia para aquele que não se limita a viver apenas uma vida!



As vezes as pessoas que passam por mim dizem, se referindo ao teatro, para que interprete um personagem. Antes, não ligava. Então, um professor me ensinou o verdadeiro sentido da palavra interpretar e percebi o quanto estava mal colocada. Interpretar seria fingir ser algo que você não é.
Atores não fingem, atores são.
Eu sou Beatriz.
Eu sou Joana,
Mas também posso ser João.
Posso morar em um lugar incrível e de repente ser a paciente de um hospício.
São tantas vidas que nós visitamos. Esse com certeza é o melhor presente na arte de atuar. Você não apenas faz amigos novos, como torna-se cada um deles.
Pessoas normais abrem o armário e vestem roupas,
Atores vestem vidas.
Pessoas normais colecionam relógios, selos, entre outras coisas;
Atores fazem coleção de personalidades.
Mais legal ainda é criar uma vida. Completamente do zero. Montar um personagem novo é como criar uma nova vida pra si mesmo. A vida que você quiser. É uma chance de começar do zero, experimentar o novo - ou experimentar de novo.
Não há sensação melhor que subir no palco com aquele frio na barriga, esperando o momento certo. Com o "sangue nos olhos" - como diria outro professor - e dando o melhor de si. E então a peça acaba, você escuta os aplausos. É muito bom ser aplaudido, é claro. Mas nada supera a sensação de dever cumprido,
E de ter feito um novo amigo.
É engraçado ver as cortinas se fechando em uma peça,
Você se pergunta o que se passa.
Mas então você está atrás delas,
E são abraços,
Sorrisos,
E mais sorrisos,
Dever cumprido,
E mais uma dúzia de amigos.
Feliz dia do ator :D

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

No mundo da música: Girls like girls

Depois de muito tempo sem postar nessa coluna, venho aqui trazer pra vocês o clipe Girls like girls, que me lembrou bastante um conto que escrevi uma vez e um curta com a participação da atriz Troian Bellisario. Tornou-se um dos meus clipes preferidos justamente por tratar do assunto da homossexualidade meio que do outro lado da moeda. Deu pra entender? Bom, vamos ao que interessa...

O clipe tem início com uma garota, Coley, chegando na casa da outra, Sonya, que está com o namorado Trenton. Já começo a gostar desse clipe pelos seus primeiros segundos. Adorei o take da câmera, pegando a vista de cima. 
Bom, quando Coley chega na casa parece ser uma amizade completamente normal. Coley seria a melhor amiga do casal. Acontece que desde o início, percebemos que ela sente algo a mais por Sonya. Isso vale pelas duas as partes. Pela letra da música, parece que foi escrita por Coley. Outro fator que gostei. 
Os olhares que elas trocam quando estão se arrumando no espelho são sutis, mas nos mostra que há algo ali. Isso é o que mais me impressionou nesse clipe, pude me sentir ali no meio por quatro minutos. Acreditei em tudo, era como se eu fosse uma delas.
Nem preciso dizer que amo os momentos finais, certo?! As duas quase se beijam, mas Trenton interfere, empurra Coley e começa a gritar com a namorada. Mas a menina logo levanta e os papéis se invertem. É ele que está no chão.
Enquanto a briga acontece, os momentos entre as duas passam pela cabeça de Coley, e essa é a motivação dela. Afinal, de certa forma o namorado de Sonya roubou algo de Coley, certo?!
Os machucados representam toda a dor de um sentimento reprimido. Quando as duas finalmente se beijam, é visível o alívio, o sentimento ali presente. E acima de tudo, a amizade.
Acho que não tem muito o que dizer sobre esse clipe, por isso ficou um tanto quanto confuso. 
É uma grande mensagem e, de certa forma, uma crítica para a sociedade que tem preconceito com o homossexualismo. Isso é evidenciado no trecho "Girls like girls like boys do." Querendo dizer algo do tipo: Ei, uma garota pode amar outra com a mesma intensidade que você ama. E isso não é errado.
Não há muito mais o que comentar, acho que é mais sentir mesmo, sabe? Mas o que mais gostei é justamente esse grito escondido no vídeo, a forma como a história se construiu e a fidelidade com o que a letra da música diz. Um trecho que poderia resumir o clipe todo, por exemplo, é:


"Always gonna steal your thunder

Watch me like a dark cloud

On the move collecting numbers, Imma take your girl out."

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Resenha: Fragmentados - Neal Shusterman

Editora: Novo Conceito 
Ano: 2015 
ISBN: 9788581635194
Páginas: 368
Nota: 4/5

Se seu corpo fosse inteiramente fragmentado. Seus braços na Itália. Seus olhos na Escócia. As pernas no Brasil. Você continuaria vivo?!

Houve uma guerra. As pessoas egoístas não doavam órgãos após sua morte. Tudo resultou na fragmentação. Uma vida não pode ser tocada até os 13 anos. Porém, dos 13 aos 18 os pais podem assinar um contrato de fragmentação. Isto é, a vida estará ali, fragmentada. Um indivíduo prestes a ser fragmentado será futuramente cortado em pedaços. Seus olhos poderão fazer parte do rosto de um ex-cego. Suas mãos poderão tocar piano para alguém que as perdeu e nunca teve essa habilidade. Isso aumentou o número de cegonhas - isto é, mulheres que abandonam os filhos nas portas de casas alheias. Acho que, no fim das contas, a grande questão do livro é: essa é realmente uma solução plausível? a fragmentação é correta? Amo a maneira sobre como a questão do aborto é abordada nas entrelinhas. Ela está ali, presente, um grande questionamento para o qual não há apenas uma resposta correta.

" (...) Há uma chance maior de que alguma parte minha alcance a grandeza em algum lugar do mundo. Eu prefiro ser parcialmente grande a ser completamente imprestável."

Refletimos sobre esses fatores ao acompanharmos a vida dos três protagonistas. Connor, que encontrou uma carta de fragmentação e, então, fugiu de casa, tendo em vista continuar assim até os 18 anos. Risa, que era uma grande pianista - mas não tão boa quanto deveria ser - acaba tornando-se uma fragmentária que logo cederá suas mãos para que alguém possa tocar o instrumento, conhece Connor durante a fuga. Assim como Lev. Porém, esse garoto é diferente e muito importante. Enquanto os outros dois são fragmentários fugitivos, Lev é um dízimo - o décimo filho que deverá ser fragmentado seguindo a vontade de Deus - e aceita completamente a fragmentação. Esse já é um grande ponto forte da história. Geralmente em distopias assim, sempre existem os protagonistas que querem lutar contra o governo, mas nunca mostram algum que concorde - pelo menos é muito difícil.

"E foi aí que eu percebi que as pessoas que estavam chorando eram as mesmas que haviam passado o bebê de porta em porta. Eram elas, assim como os meus próprios pais, que haviam ajudado a matá-la."

Não há muito o que dizer sobre o enredo em si. Ele é bastante ágil e te prende na leitura, mas não foi o que me chamou a atenção. Devo dizer que Fragmentados é um livro bem estranho, diferente. E isso o fez se destacar entre as distopias. Os questionamentos, as provocações presentes ali tão sutilmente me fizeram pular.


Algo que me chocou - e me fascinou - bastante é uma situação bastante presente na sociedade atual. É uma grande analogia. Uma determinada pessoa que sofreu um acidente e, vamos supor, perdeu os dois olhos, comprará olhos de um fragmentado, Porém, isso depende do dinheiro. Caso não haja suficiente, ela terá de adquirir dois olhos cegos.

"(...) As pessoas não são completamente boas nem completamente ruins. A gente passa a vida toda entrando e saindo das sombras e da luz. Neste momento, eu estou feliz por estar na luz."

É por essa grande analogia a sociedade atual, misturada com uma crítica velada - as vezes não tão velada assim - e questionamento que realmente te fazem questionar, que Fragmentados conquistou um lugar especial entre as distopias. Com certeza é um livro que se destaca.

"Para batedores que foram levados a acreditar que seus atos são aprovados por Deus, a mentira se veste em mantos sagrados e tem braços abertos prometendo uma recompensa que nunca virá.
Para batedores que creem que seu ato de alguma forma causará uma transformação no mundo, a mentira se disfarça como uma multidão que os encara do futuro, sorrindo e apreciando o que fizeram.
Para batedores que procuram apenas compartilhar sua desgraça pessoal com o mundo, a mentira é uma imagem deles mesmos livres da dor ao testemunhar a dor de outros.
E, para batedores que são guiados pela vingança, a mentira é uma balança da justiça, na qual ambos os pratos pesam o mesmo, finalmente equilibrados."